Diocese de Garanhuns

Voz do Pastor

Íntegra da homilia de Dom Paulo na Missa do Crisma na Catedral

O texto da primeira leitura de hoje, que é retomado no Evangelho, é retirado do Terceiro Isaías, que é uma coletânea de profecias anônimas, escritas depois do exílio babilônico. É o período da reconstrução da esperança depois da grande catástrofe. A consciência fundamental é de que o Senhor consagrou o seu eleito e o ungiu para uma missão muito especial: levar a boa nova aos pobres; curar os feridos; pregar a redenção aos exilados e a libertação aos prisioneiros; proclamar o tempo da graça; consolar os que choram; oferecer uma coroa de vitória em vez de cinzas e luto, oferecer o óleo da alegria em vez de aflição. Os sacerdotes, chamados servidores de Deus, são destinatários de uma aliança perpétua e da bênção, mas, ao mesmo tempo, serão recompensados pelas suas obras. Essa palavra última nos coloca diante da fineza da responsabilidade que o Senhor nos confiou: seremos recompensados por nossas obras. Que tipo de obras temos realizado? Retorna ao nosso coração nossa tríplice consagração: como Cristo, chamados a ser castos, pobres e obedientes. Numa palavra, um pastor-servo plenamente configurado ao Cristo. Somente assim, seremos mediadores de uma alegre, esperançosa e alvissareira notícia para a humanidade ferida e cansada. Guerras e rumores de guerra; perseguição a cristãos em muitas regiões do mundo; seca e violência em nossas redondezas; assaltos a mão armada; carros tomados em nossas estradas à luz do dia; ruas inteiras e lojas roubadas e depredadas; o lixo toma conta de ruas, das periferias, das zonas rurais; a criação ferida, as fontes e nascentes envenenadas e violentadas; a água privatizada e vendida a preço de ouro; a instabilidade política e a corrupção campeiam em vários âmbitos do poder; tentativas funestas de destruir conquistas dos trabalhadores e de atingir os mais pobres, fazendo-os pagar a conta dos juros vergonhosos de um sistema bancário vil e da besta sanguinolenta do mercado que suga as últimas gotas de sangue dos miseráveis; tentativas de reformas, especialmente a trabalhista e a previdenciária, que ferem a dignidade de um povo e roubam seus direitos. Ah, Senhor, fomos consagrados para anunciar uma boa notícia ao mundo. Que o nosso ministério se torne alegre e esperançosa notícia. Isso dá a gravidade da altura, da profundidade, da largueza e do comprimento da dignidade da graça e do mistério que carregamos em vasos de argila. Vasos de argila somos nós, depositários e um tesouro precioso. Prezados sacerdotes, quero recordar-lhes algumas coisas a partir do Rito da Ordenação de um Presbítero. Nesse rito, quando o candidato escuta as palavras pronunciadas pelo diácono: “Queira aproximar-se o que vai ser ordenado presbítero”, normalmente corre pela coluna vertebral um frêmito, 2 um estupor, um tremor e um temor reverente. Trêmulo, coloca-se de pé em sinal de prontidão. Em seguida, um presbítero diz palavras ainda mais desafiadoras: “A Santa Mãe Igreja pede que ordenes para a função de presbítero este nosso irmão”. O bispo acolhe o pedido da Igreja e responde oficialmente em nome da Igreja: “Com o auxílio de Deus e de Jesus Cristo, nosso Salvador, escolhemos este nosso irmão para a Ordem do Presbiterado”. E todos dizem: “Graças a Deus”. Nosso ministério pertence à Igreja. Ele não nos pertence. Estou dizendo isso porque me preocupa a situação da Igreja nesses últimos tempos, especialmente por causa do modo como alguns estão encarando o pontificado do Papa Francisco e, inclusive, querendo lhe negar a legitimidade. O pontificado do Papa Bento XVI foi uma grande bênção para a Igreja. Seu maior gesto, entre tantos grandes gestos, foi a humildade demonstrada por sua renúncia. Mas, acolher com fé eclesial e acatamento religioso, com os afetos, com a inteligência e com a vontade o Papa Francisco como aquele que foi escolhido pelo Espírito Santo para conduzir a barca de Cristo nesses mares revoltos e bravios... Essa é a atitude que o Espírito Santo nos pede. Uma hermenêutica de ruptura entre Francisco e os pontificados anteriores é um mal imenso para a Igreja. Em Francisco reside o único e verdadeiro magistério ordinário-pontifício atual a quem somos chamados a escutar. Cum Petro. E Pedro hoje é o Papa Francisco e sua proposta para a Igreja, elaborada especialmente na Evangelii Gaudium. No rito, a primeira palavra do bispo ordenante é: “Podes dizer-me se ele é digno deste ministério?”. Nossos responsáveis nos deram um voto de confiança. Falaram sobre a nossa estrutura humano-afetiva e o crescimento espiritual, pastoral e intelectual ao longo do processo. Essa pergunta continua a nos inquietar até hoje. Nossa humanidade grita. Mas, “aquilo que não é assumido não é salvo”, como diz Santo Atanásio. O Filho de Deus assumiu nossa carne. A nossa dignidade para assumir o ministério só é possível por causa da descoberta de Santo Afonso Maria de Ligório, meditando o Salmo 129,7: Copiosa apud eum redemptio – “Nele, há copiosa redenção”. O nosso chamado foi um ato da pura misericórdia de Deus. Quando o bispo volta a falar, imaginávamos que ele fosse se referir aos testemunhos dados. Não! Ele diz: “Com o auxílio de Deus e de Jesus Cristo, nosso Salvador, escolhemos este nosso irmão para a Ordem do Presbiterado”. A eleição do candidato é fruto da graça de Deus. Não exclui o testemunho das autoridades, mas conta, sobretudo, com a graça de Deus. Somos escolhidos para uma ordem, a Ordem do Presbiterado. Não é um time de futebol, uma ONG ou um clube de amigos. É um mistério sacramental de unidade. Na homilia para a ordenação de presbíteros proposta pelo ritual, aparece a seguinte expressão: “os presbíteros são cooperadores dos Bispos”. Mais adiante, por ocasião dos propósitos, retorna 3 com a frase “fiéis colaboradores da Ordem Episcopal”; retorna ainda na pergunta sobre a obediência e respeito ao bispo diocesano e aos seus sucessores. Na Prece de Ordenação, os presbíteros aparecem como “colaboradores para anunciar e consumar em todo o mundo a obra da salvação”, “para que as palavras do Evangelho, caindo nos corações humanos, através de sua pregação, possam dar muitos frutos e chegar até os confins da terra, com a graça do Espírito Santo”. Juntamente com os bispos, eles sejam “fiéis dispensadores dos mistérios celestes”. “Que eles estejam sempre unidos a nós, bispos, para implorar a misericórdia do Senhor em favor do povo e do mundo”. Na resposta à saudação da paz, o presbítero diz: “o amor de Cristo nos uniu”. O que mais espanta é que em nenhum momento, aparece o elemento do presbitério. O fundamento da unidade dos presbíteros não é a sua comunhão interna, o seu espírito de corpo, seus projetos eclesiológicos, suas estratégias missionárias, suas amizades, idiossincrasias ou afinidades de qualquer ordem. O fundamento da unidade entre os presbíteros é a sua vinculação ao bispo diocesano. Presbitério e bispo num encontro sacramental expressamos a unidade e uma comunhão misteriosa, análoga à unidade de Cristo e de sua esposa, a Igreja. Amemo-nos. Que os presbíteros desta Diocese se amem, se respeitem, trabalhem em equipe, cooperem mutuamente. Há algo muito maior que nos une e nos ultrapassa. Na verdade, o fundamento último e primeiro de nossa missão é a configuração ao Cristo Mestre, Pastor e Sacerdote. Gostaria de dizer-lhes, neste ano, duas palavras sobre o múnus de ensinar e santificar. Muito provavelmente, o texto mais forte e belo sobre a configuração ao Cristo Mestre é o da homilia proposta para a ordenação presbiteral: “Quanto a ti, filho querido, que será ordenado presbítero, deverás (1) cumprir no Cristo Mestre a tua função de ensinar. (2) Transmite a todos a palavra de Deus que recebeste com alegria. Meditando na lei do Senhor, (3) procura crer no que leres, ensinar o que creres, praticar o que ensinares. Seja, portanto, (4) a tua pregação alimento para o povo de Deus, (5) e a tua vida, estímulo para os fiéis, de modo a edificares a casa de Deus, isto é, a Igreja, pela palavra e pelo exemplo”. E nos propósitos, a pergunta diz: “Queres, com dignidade e sabedoria, desempenhar o ministério da palavra, proclamando o Evangelho e ensinando a fé católica?”. Preocupa-me o modo como muitos presbíteros lidam com a Palavra de Deus. Muitos não conseguem nem ler as leituras cotidianas e preparar bem as homilias. São homilias improvisadas, não rezadas. Outros se contentam com os trechos que o calendário litúrgico propõe para cada dia, mas falta uma leitura cotidiana e sequenciada da Sagrada Escritura. Falta familiaridade, citação de texto à memória. Muitos padres não conseguem propor a passagem do Bom Samaritano (Lc 10,30) por não recordá-la. Significa que falta familiaridade. É preciso conhecer a Palavra de Deus na 4 Sagrada Escritura, amá-la, citá-la, tomar posse dela. Fazer Lectio Divina deveria ser algo natural na vida de um presbítero. Desenvolver uma cultura bíblica ampla é um dos maiores desafios para a maioria dos sacerdotes. Nossa pregação fundamentalmente é a Sagrada Escritura. A Bíblia não pode ser um mero livro de estudo acadêmico. Apesar de as informações da exegese moderna não serem dispensáveis, é a interpretação patrística, existencial, espiritual que pode ajudar muito as nossas comunidades. Mas, há um passo que foi dado pelo papa Bento XVI na Verbum Domini: passar da Palavra de Deus na Sagrada Escritura ao Deus que é Palavra. Jesus Cristo é o Verbo Eterno do Pai. Deus se entretém com a humanidade. Falanos como a amigos. Criar a intimidade e apaixonar-nos por Cristo-Palavra é o grande desafio para o presbítero dos nossos dias, configurar-se a Ele. O mundo de hoje é o mundo do efêmero, da descartabilidade, é o mundo líquido, das mudanças repentinas, do “ficar” sem comprometer-se. É o mundo do novidadismo. Daí a necessidade de tanto fricote, de tanta folia exterior, sem interioridade, pura dispersão, inconstância. Permanecer em Cristo... Somente daí pode provir a verdadeira sabedoria da maestria. No mundo das informações fragmentadas, de clusters fragmentários que não se transformam em conhecimento, não se transformam em sabedoria, somos convidados à sabedoria da cruz, mais sábia do que toda sabedoria humana. Permanecer no Cristo-Palavra para amadurecer, para colocar-se em ordem interiormente. Cristo é o primeiro e único Mestre de nós mesmos. É Ele quem ilumina a nossa existência. Permanecer nele mesmo quando mergulhamos na multiplicidade, na crise, na escuridão e na dispersão do coração, pois aí está a fraqueza e o pecado. Quando Jesus diz para nós: “Que todos sejam um”, Ele está dizendo, em primeiro lugar, que cada presbítero se torne uno, vença a fragmentação, se torne casto pobre e servo. Somente assim é possível tornar-se Mestre: exatamente porque testemunha e mistagogo. A nossa capacidade de ensinar provém da nossa capacidade de aprender com Cristo no processo de permanecer n’Ele. Isso tem a ver com paternidade espiritual, tem a ver com fecundidade. O padre não pode ser um solteirão infecundo. Somos pais, somos Mestres. E aqui entra outra dimensão que nos povoa: a maturidade afetiva, sexual, indivisa e celibatária. Quando conhecemos a história de tantos missionários, mártires, gente que doou a vida, descobrimos: eles se tornaram mestres, mistagogos, pais fecundos. É uma história de vida, de fecundidade. Permanecer em Cristo é indispensável para guiar a própria vida e a vida dos outros para Cristo, não para nós, não para os nossos esquemas personalistas. Jesus não facilita, nem está disposto a propor uma Igreja de barulho e exterioridade. Mas, é também preciso criar projetos concretos vinculados à dimensão da Palavra. Em Garanhuns, como seria bom se começássemos a “Quarta da Palavra”. Está no meu coração. Um dia todo dedicado à formação bíblico- 5 catequética. Priorizando a Escola da Fé, os grupos de Círculos Bíblicos e os grupos de Leitura Orante da Palavra de Deus. Mas, é preciso lembrar sempre que não somos uma “religião do livro”, mas da Palavra, que é Cristo. Uma palavra sobre a dimensão sacerdotal do nosso ministério. Todos conhecem essa historinha. Quando São João Maria Vianey estava chegando a Ars, perguntou a um pastor, que estava cuidando do rebanho perto da cidade: “Meu filho, como faço para chegar a Ars?”. O garoto respondeu: “Por ali, seu vigário”. O Cura d’Ars, então, disse-lhe: “Meu filho, hoje você me ensinou o caminho de Ars. Eu lhe ensinarei o caminho do céu”. Ensinar o caminho do céu... Somos sacerdotes. Nossa missão é conduzir para o céu. O ápice da presença da dimensão sacerdotal no ritual de ordenação é por ocasião da unção com o Santo Crisma. Depois da imposição das mãos e da Prece de Ordenação, o presbítero é revestido da casula e ungido. O bispo lhe diz estas palavras: “Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo, e revestiu de poder, te guarde para a santificação do povo fiel e para oferecer a Deus o Santo Sacrifício”. Em seguida, entrega-lhe o pão e o vinho: (1) Recebe a oferenda do povo santo para apresentá-la a Deus; (2) toma consciência do que vais fazer; (3) e põe em prática o que vais celebrar, conformando a tua vida ao mistério da cruz do Senhor”. Quero concluir, dando-lhes quatro dicas sobre a dimensão sacerdotal: 1) A Missa não me pertence. Certamente, vocês já escutaram o que aquela senhora disse para o padre: “Padre, como é bonito o modo como você celebra. E o momento mais bonito é quando você se ajoelha depois da elevação. Ali, você desaparece e somente Cristo pode ser visto”. Não precisamos inventar nada. A missa não nos pertence. É da Igreja. É o maior mistério da nossa fé e do nosso ministério: o Cristo crucificado e ressuscitado faz-se presente no altar. Mistério insondável. 2) Vestes. A Liturgia católica e ortodoxa é toda moldada no Livro do Apocalipse. O céu desce e a terra sobe. Por isso, tanta beleza, tantas flores, incenso, vestes, canto. Sejam padres zelosos na liturgia, mas com nobreza, simplicidade e pudor. O mercado das vestes litúrgicas está profundamente aquecido. Alguns padres vestem batina pela manhã, clergyman à tarde e camisetinha apertada à noite para mostrar os músculos malhados. Mundanismo e desfile de vaidade em vestes cada vez mais vistosas e caras. A batina ou o clergyman é para o casebre da periferia e para a audiência com o governador. Quando uso esse distintivo, devo lembrar-me que sou de Deus para que as pessoas também vejam em nós que nós somos de Deus. 3) Prece pelo povo e escuta do povo. Algo fundamental em nossa missão é a assiduidade e a fidelidade na oração, especialmente na Liturgia das Horas, e na celebração da Eucaristia, e na adoração respeitosa do 6 Santíssimo Sacramento. Mesmo que eu não tenha vontade, inclusive no dia de folga. Além disso, é preciso aprendermos a escutar mais. Atender, acolher, escutar, acompanhar, discernir, integrar, como pede o Papa Francisco. Isso passa pelo atendimento aos enfermos e pecadores, por meio dos Sacramentos de Cura. 4) A Missa como síntese da vida inteira do padre. O sacerdote que se configura ao Cristo sacerdote, doa-se por inteiro. Aí o seu ministério junto aos pobres ganha sentido; a pregação da palavra; o descanso, o lazer; o aconselhamento... A oferta celebrada no altar toma conta da vida do padre e se torna expressão da Missa celebrada. Tudo se torna mediação sacerdotal para se oferecer Deus ao mundo. Aqui, há um mistério: se o padre não fizer isso, as outras dimensões de sua existência não se tornam sacerdotalizadas. Ele se fragmenta e não pode mostrar o caminho do céu. É preciso falar de Cristo, de reza, da beleza de nosso Deus, do céu, da nossa própria experiência de Deus, da experiência da misericórdia de Deus em nós. Nosso caminho não é o do líder político, do assistente social, do advogado, do líder de sindicato. A única coisa que o padre pode dar é Cristo, os santos mistérios: os sacramentos, a Palavra e o pastoreio do povo. Sacrifício da Eucaristia: Cristo na cruz que nos deu vida nova e a possibilidade da ressurreição. Presentificação do sacrifício da morte e ressurreição do Senhor na Eucaristia. Jesus viveu todo para o Pai e para o seu povo. Imolado e de pé. Jesus está no céu, apresentando ao Pai o seu próprio sangue. Por isso, no meu brasão episcopal, eu coloquei as três tábuas: a manjedoura, a cruz e o altar. Componha a quarta tábua: o barco, símbolo do ministério público, o barco do seu ministério. Componha o seu barco com pedaços da cruz, da manjedoura e do altar. Assim, a sua missa abraçará o mundo. Amém.